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O assassinato do bandido de boa indole

“Guardei a cápsula e o boné (do criminoso assassinado) como recordação” João Jacques Busnello - Major PM autor do tiro certeiro

“A polícia poderia ter esperado um pouco mais. Ele não ia detonar a granada, a índole dele não era essa”. Edmar Paula Matos – Domestica, mãe do bandido assassinado.

“Você salvou a minha vida. Muito obrigada” /"Era eu ou ele...Deus iluminou o homem que fez aquele disparo" Ana Cristina Garrido – Comerciante, refém do bandido na hora do assassinato.



Todos têm suas próprias razões. Quem poderá duvidar da sinceridade de Ana Cristina ao agradecer por um assassinato, dadas as circunstancias? Quem poderá criticar o major Busnello por fazer da vestimenta perfurada por sua bala, um macabro suvenir? Quem poderá acusar falsidade no testemunho de Edmar sobre a índole do filho criminoso?

Sergio Ferreira Pinto, 24 anos, ensino médio completo, desempregado há três anos, mesmo tempo que sua filha tem de vida. Ficha policial de bandido pé-de-chinelos com passagens por furto (de uma bolsa), porte ilegal de armas e desobediência, solto pela justiça (com urgência) por ter ficado preso tempo demais sem ir a julgamento. Na ultima sexta (25) tentou assaltar uma perua Kombi dos correios portando uma granada, provavelmente por falta de arma mais adequada, surpreendido pela policia fez a comerciante refém e baleado pelo major Busnello caiu instantaneamente morto.

Para Dona Edmar, um bom garoto, que até terminou o segundo grau e cometia crimes para suprir as necessidades financeiras da família. No entender complacente de mãe, até boa índole tinha. Difícil entender como possuidor de boa índole quem é freguês assíduo do sistema prisional ou ameaça explodir “todo mundo” com uma granada, mas uma coisa é certa: Sergio, que até terminou o ensino médio, tinha suas próprias razões.

Deixou para os poucos parentes e amigos a dor da perda e uma despesa que mobilizou até pouco antes do enterro a pequena caravana (quatro pessoas) que o sepultou.

Ana Cristina Garrido administra uma farmácia e como quase toda a população das grandes cidades brasileiras deve viver apavorada pela criminalidade. A violência de que foi vitima provavelmente marcará sua vida para sempre, deixando seqüelas psicológicas insuperáveis. A violência lhe assombrou tanto a personalidade que provavelmente nem se deu conta que agradeceu a retirada de uma vida em prol da sua própria e até invocou a inspiração divina como se para Deus uma ou outra vida tivesse valor diferenciado.

O herói na ordem do dia, major PM João Busnello não perdeu o sono por ter cometido um assassinato à luz do dia em rede nacional de tv, antes tratou de guardar os troféus como lembranças de seu dia de carrasco. Levou a família completa numa confraternização para celebrar o fato de ter matado uma pessoa - e ironia das ironias – justamente no dia em que sua “presa” estava sendo enterrada noutro canto da cidade.

Sergio era sem duvida o tipo de gente que precisa ser retirado do seio da sociedade, perdera a noção do que seja o bem alheio e o valor do que é alheio, provavelmente até mesmo a vida. Sentir-se impotente mediante ameaça justifica qualquer sentimento de alivio ou mesmo de vingança que possa ter passado pela cabeça de Ana Cristina ao ver o insolente que lhe ameaçava a vida cair impotente aos seus pés. O Major Busnello fez justamente o que lhe pagamos para fazer ao defender a sociedade com sua arma e sabe perfeitamente que o bandido não teria qualquer piedade ao lhe ter na mira.

Mas o diabo é que eu não consigo soltar fogos para comemorar o desfecho da história ou terminar de contá-la com o clássico “e todos foram felizes para sempre”. Ver a cena do bandido caindo inerte, boné voando pelos ares me causa perplexidade, saber do convescote no dia posterior ao ocorrido a fim de celebrar isto me deixa chocado, olhar a foto que ilustra este artigo (associada à frase de Dona Edmar) me causa comoção a ponto de sentir -como não ocorria há muito tempo- aquele nó na garganta, montando mentalmente o quadro só uma palavra me vem à cabeça: Violência.

Eu que tomo todas as medidas de segurança ao meu alcance e vivo diariamente o stress da insegurança na cidade grande provavelmente escreveria um artigo indignado se a historia terminasse em tragédia para alguém que não o bandido, mas ao invés de aplaudir o fim do espetáculo fico aqui me perguntando:

Pra que Sergio estudou até o fim do ensino médio se na escola não ensinam a manejar armas e granadas?

O Arcebispo que excomungou os médicos por praticarem o aborto naquela garotinha de apenas nove anos vai se manifestar neste episódio?

Já chegamos ao ponto em que precisamos escolher as mortes que devem ser choradas e as que devem ser comemoradas?

Que Deus conforte Dona Edmar, Alivie e de forças a Ana Cristina e ajude o Major Busnello a equacionar este negocio de matar pessoas más para defender pessoas boas e, sobretudo que Deus nos proteja dos “Sergios” que não morreram ainda e dos governos que habilitam gente de boa índole a nos ameaçar o patrimonio e a vida ou virar alvo para seus atiradores de elite.

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