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O bouquet.

Não era um bouquet excepcional aquele, mas suas pétalas nos tons champagne e rosa, harmoniosamente ajeitados,  lhe conferiam certa graça e a embalagem com motivos angelicais lhe garantiam leveza e remetiam a certa paz, o que justificava o preço salgado. O bilhete escrito e reescrito varias vezes (antes quase uma carta) se resumia a frase "Obrigado e boas festas".
 
Não tinha mais nenhum glamour aquele bilhete, naquele bouquet que nada tinha de excepcional e que para completar seu infortúnio, agora acabara de perder o destinatário. Pobre Bouquet!
 
Repousou numa malcuidada praça, como se sua missão de vida fosse conferir alguma beleza e dignidade aquele canto esquecido da cidade. Triste fim do bouquet desafortunado.
 
Não se sabe o que as rosas sentem, mas talvez tenham sentido medo, quando perceberam a aproximação daquelas mãos sujas e judiadas pelo uso intenso do cachimbo de drogas, prevendo um desfecho ainda menos nobre. Desde o plantio lá pelas bandas de Holambra, os cuidados do produtor, a colheita e embalagem refinadas, uma longa viagem até o distribuidor para acabarem destroçadas por um louco ensandecido que vagueia pelas ruas e pelas noites.
 
O bilhete foi ao chão, aderindo de pronto, a estética do local. Nunca havia prestado aquele bilhete, nunca teve coragem sequer de ser portador de boas novas, encontrara ali seu habitat mais que natural, até que a chuva o levasse ao bueiro ou ao rio mais próximo, serviria bem para compor aquela paisagem de desventura.
 
O farol fechou e logo surgiu pela fresta do vidro um aceno. Uma nota de pouco valor e o bouquet ressurgia, entregue por um enamorado a sua esfuziante carona, que se ria, como se recebesse uma jóia. O carro partiu levando sua música brega e o já nobre bouquet para outras paragens.
 
Aquele bouquet de rosas, em sua breve e imponderável história, disse um bocado de cousas! Talvez tenha até encontrado um fim bem agradável, enfeitando uma cabeceira em chamas ou quem sabe com suas pétalas cuidadosamente guardadas naquela agenda, com um verso brega qualquer, lembrando que testemunhou amores e desventuras inerentes a existência.
 
 

3 comentários

Anônimo disse...

Lindo. Chorei...

Teka disse...

Guti, guti! És um poeta completo meu amigo!!! Quanta inspiração. Rsrsrs.

Anônimo disse...

Lindo mesmo emocionanti

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