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O escrever da história.


Julião carrega sempre na carteira uma foto amarelada, rasgada pelo meio. Nela se vêem duas crianças, Lucinha e Aparecida, de trancinhas, brincando na areia. O rasgão denteado corta parte do braço alevantado de uma delas. Julião, emocionado, explica que "é Lucinha me estendendo um ancinho de brincar". Mas Julião não consta da foto, tal como não aparecem o ancinho e a mão da miúda. Português andarilho, Julião sobreviveu em vários estados brasileiros. Mas foi no Rio de Janeiro que, nos idos de 70, encontrou a sua amada, moça do interior baiano que lhe concedeu duas filhas "lindas de morrer". Nas praias de Niterói clicaram dezenas de fotografias - ele com as crianças, ela com as crianças, apenas as crianças. Julião bebia muito, assumia-se mulherengo e boémio de botequim. Um dia, após épica discussão, a baiana desapareceu. Levou as meninas e as fotografias. Menos uma: a "chapa" censurada, com as duas crianças brincando na praia. Julião correu o Brasil, já lúcido, mas não encontrou rasto das filhas. Voltou a Portugal, meteu-se em políticas, leu uns livros, passou pelo 25 de Abril e, quando mostra a foto, lembra-se logo das técnicas estalinistas, de quando se foram apagando dos retratos oficiais as figuras soviéticas de que o líder não gostava, Trotsky à cabeça. Com sofrida ironia, Julião suspira. "Sofri no coração as técnicas do estalinismo fotográfico!" Nos tempos que correm, as técnicas são outras; e democráticas. Tiram-se umas figuras, põem-se outras, baralha-se tudo, dá-se de novo, esquecem-se umas coisas, recuperam-se outras. Orwell disse que "a História é escrita pelos vencedores!" Na verdade, não são os historiadores que escrevem a História, quanto muito reescrevem-na com base em documentos supostamente fiáveis. A verdadeira História escreve-se, vê-se e escuta-se todos os dias - e vai-se refazendo ao longo dos anos e dos séculos. E por isso, são mesmo os vencedores que escrevem a História. O Jornalismo fiável limita-se a descrever o quotidiano de que se alimenta a História. Até as grandes figuras (da política, da ciência, das artes, do jornalismo) vão e vêm ao sabor da História vencedora. Sobra a memória do Povo. O busílis, para os historiadores, é que grande parte da memória do Povo fica-se, neste século, pela memória do que se viu (ou de quem se viu) na TV. Porque, por exagero ou manipulação, criou-se a ideia de que uma imagem vale mais do que mil palavras. Logo, o estalinismo passou a ser democrático. Esquecem-se desmemoriados poderosos que Estaline acabou por não ficar nada bem na fotografia da História. 

O autor: http://www.cmjornal.pt/opiniao/colunistas/victor-bandarra

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