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O maníaco da faca matou Gabriela, foi pra cadeia. Ela não vai mais ter uma turma.

Nos anos 90 eu morava no bairro Parque América, região do Grajaú, zona sul de São Paulo. Tínhamos uma turma unida, alegre e muito grande. Era a galera da rua 11. Nos dias de semana à noite, infernizávamos os vizinhos com animadas peladas de "golzinho", três contra três, cinco minutos ou dois gols. Se empatar sai os dois!

Gabriela na TV
Aos finais de semana, pela manhã, estendíamos a rede de volei e vinha gente de todo lugar, meninos e meninas, para dar boladas nos portões até a fome apertar no meio da tarde. A noite sempre tinha uma festinha, um bailinho ou balada onde cabia 15, 20 adolescentes ou até mais e para dar sossego aos vizinhos, de tempos em tempos, organizávamos excursões para o litoral ou para cidades turísticas, onde nós mesmos contratávamos o ônibus do seu Nelson, vendíamos e comprávamos as passagens e lá se ia a turma da rua 11 aprontar em outras freguesias. Bons tempos aqueles!

Na esquina da rua 11 existe até hoje o bar do seu Esaú, um senhor já de idade avançada, dos primeiros moradores do bairro e emigrante paranaense. Bom contador de papo, piada e prosa. Seus filhos cresceram ali com a turma da rua. Nelson, Nelci (O Piaba) e Neuri, de quem eu sempre fui mais próximo. 

O tempo passou e cada um foi tomando seu caminho, seguindo suas vidas e o contato rareando. De vez em quando, antes de mudar de cidade, eu passava no bar do seu Esaú para um happy hour com os amigos e para matar a saudade.

Um dia, zapeando a tv no final da tarde, os telejornais populares alardeavam um crime. o chamado maníaco da faca tinha assassinado uma garota de 17 anos num ponto de ônibus na região de Interlagos, antes disto já tinha atacado outras 4 mulheres nas mesmas circunstâncias.

O que me chamou atenção foi ver a cena do enterro, onde incrivelmente apareceu seu Esaú, sendo amparado e retirado do velório e os depoimentos emocionados e chocantes do pai da menina, o Nelson e dos tios Piaba e Neuri. Gabriela era uma menina linda, estudiosa e muito religiosa. No momento do crime estava se encaminhando para a igreja, veja só. 

Parei estarrecido por um momento e aquele acontecimento me atormentou por um bom tempo. Como
Rafael, o maníaco sendo conduzido por policiais.
pode a violência nos assediar desta maneira? Aquelas pessoas tão próximas tinham tentado fazer tudo direito na vida, eram pessoas boas e honestas e agora, de repente são protagonistas de um show de horror nos programas policiais da tv. Demorei uns dois meses para ter coragem de passar no bar do seu Esaú novamente.

O tempo passou, as coisas foram voltando ao seu devido lugar e mesmo não esquecendo totalmente a história, deixei de pensar naquilo. Até que outro dia, novamente zapeando a tv num final de tarde a imagem da meiga Gabriela me chamou a atenção.

O maníaco da faca estava para ser julgado. Parei o que estava fazendo para prestar atenção. Rafael Inacio da Silva, um menino de 24 anos e servente de pedreiro que morava nas imediações fora preso em 2013 pela equipe do 48º distrito policial e alegara forças ocultas e sobrenaturais para cometer o crime. sem muita convicção jurava arrependimento.

Não me interessei pelo resultado do julgamento. este pobre diabo vai terminar de se perder numa cadeia superlotada qualquer ou quando sair de lá daqui alguns anos e ainda pior. Um tanto melhor que foi tirado do convívio social por algum tempo. 

Isto deve trazer algum alívio para a família, muito embora Gabriela não possa voltar jamais; jamais vai ter uma turma e jamais vai aparecer, assim sem compromisso, só para matar as saudades de algum lugar, de alguém ou qualquer. Nem nas piores divagações daquela turma alguém poderia imaginar algo assim espreitando no caminho. 

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