O assassinato do bandido de boa indole
“Guardei a cápsula e o boné (do criminoso assassinado) como recordação” João Jacques Busnello - Major PM autor do tiro certeiro
“A polícia poderia ter esperado um pouco mais. Ele não ia detonar a granada, a índole dele não era essa”. Edmar Paula Matos – Domestica, mãe do bandido assassinado.
“Você salvou a minha vida. Muito obrigada” /"Era eu ou ele...Deus iluminou o homem que fez aquele disparo" Ana Cristina Garrido – Comerciante, refém do bandido na hora do assassinato.
Todos têm suas próprias razões. Quem poderá duvidar da sinceridade de An
a Cristina ao agradecer por um assassinato, dadas as circunstancias? Quem poderá criticar o major Busnello por fazer da vestimenta perfurada por sua bala, um macabro suvenir? Quem poderá acusar falsidade no testemunho de Edmar sobre a índole do filho criminoso?
Para Dona Edmar, um bom garoto, que até terminou o segundo grau e cometia crimes para suprir as necessidades financeiras da família. No entender complacente de mãe, até boa índole tinha. Difícil entender como possuidor de boa índole quem é freguês assíduo do sistema prisional ou ameaça explodir “todo mundo” com uma granada, mas uma coisa é certa: Sergio, que até terminou o ensino médio, tinha suas próprias razões.
Deixou para os poucos parentes e amigos a dor da perda e uma despesa que mobilizou até pouco antes do enterro a pequena caravana (quatro pessoas) que o sepultou.
Ana Cristina Garrido administra uma farmácia e como quase toda a população das grandes cidades brasileiras deve viver apavorada pela criminalidade. A violência de que foi vitima provavelmente marcará sua vida para sempre, deixando seqüelas psicológicas insuperáveis. A violência lhe assombrou tanto a personalidade que provavelmente nem se deu conta que agradeceu a retirada de uma vida em prol da sua própria e até invocou a inspiração divina como se para Deus uma ou outra vida tivesse valor diferenciado.
O herói na ordem do dia, major PM João Busnello não perdeu o sono por ter cometido um assassinato à luz do dia em rede nacional de tv, antes tratou de guardar os troféus como lembranças de seu dia de carrasco. Levou a família completa numa confraternização para celebrar o fato de ter matado uma pessoa - e ironia das ironias – justamente no dia em que sua “presa” estava sendo enterrada noutro canto da cidade.
Sergio era sem duvida o tipo de gente que precisa ser retirado do seio da sociedade, perdera a noção do que seja o bem alheio e o valor do que é alheio, provavelmente até mesmo a vida. Sentir-se impotente mediante ameaça justifica qualquer sentimento de alivio ou mesmo de vingança que possa ter passado pela cabeça de Ana Cristina ao ver o insolente que lhe ameaçava a vida cair impotente aos seus pés. O Major Busnello fez justamente o que lhe pagamos para fazer ao defender a sociedade com sua arma e sabe perfeitamente que o bandido não teria qualquer piedade ao lhe ter na mira.
Mas o diabo é que eu não consigo soltar fogos para comemorar o desfecho da história ou terminar de contá-la com o clássico “e todos foram felizes para sempre”. Ver a cena do bandido caindo inerte, boné voando pelos ares me causa perplexidade, saber do convescote no dia posterior ao ocorrido a fim de celebrar isto me deixa chocado, olhar a foto que ilustra este artigo (associada à frase de Dona Edmar) me causa comoção a ponto de sentir -como não ocorria há muito tempo- aquele nó na garganta, montando mentalmente o quadro só uma palavra me vem à cabeça: Violência.
Eu que tomo todas as medidas de segurança ao meu alcance e vivo diariamente o stress da insegurança na cidade grande provavelmente escreveria um artigo indignado se a historia terminasse em tragédia para alguém que não o bandido, mas ao invés de aplaudir o fim do espetáculo fico aqui me perguntando:
Pra que Sergio estudou até o fim do ensino médio se na escola não ensinam a manejar armas e granadas?
O Arcebispo que excomungou os médicos por praticarem o aborto naquela garotinha de apenas nove anos vai se manifestar neste episódio?
Já chegamos ao ponto em que precisamos escolher as mortes que devem ser choradas e as que devem ser comemoradas?Que Deus conforte Dona Edmar, Alivie e de forças a Ana Cristina e ajude o Major Busnello a equacionar este negocio de matar pessoas más para defender pessoas boas e, sobretudo que Deus nos proteja dos “Sergios” que não morreram ainda e dos governos que habilitam gente de boa índole a nos ameaçar o patrimonio e a vida ou virar alvo para seus atiradores de elite.
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